Desce enfim ao submundo. Expirou longe da Grécia, do conhecido verdejante. Flamejante – foi antes o que buscou durante a vida na superfície. Incendiar vilas com palavras, carbonizar costumes, a centelha da dúvida! Correu em chamas pelo mundo. Trouxe o fogo como Prometeu, o mestre e guia, mas era o fogo profano dos deuses sangrantes. À falta de recato uma só direção: queda. A poetisa de Lesbos aguarda, pois, sua vez na fila dos desalmados quando nota hieróglifos na parede. Esperava Hades, mas agora sabe que não é este quem virá.
- O mito, a sombra, o túnel eu vi. Não subi ao Olimpo e ao Hades não foi que eu desci. A epígrafe, enfim, se apresenta viva: “Clamarei de um lugar que não conhece meus feitos; morrerei em um lugar que não conhece meu nome”.
Surge Anúbis, compostura, cajado e cabeça de chacal. Os olhos são luz.
- Quem vem lá e d’onde.
- Quem sou? Fui muitas e tantos, e contos e canções. Com a vida sonhei, para a morte sorri, sou Safo de Lesbos – cantei, amei, vivi.
- A poetisa desejada por Hermes do Olimpo? A boca flamejante das ilhas do Egeu? Vens de subverter o mundo e dar com a língua nos dentes.
- Venho de abraçar o mundo e dar fogo aos descrentes.
- Queres insultar o sacro templo de Rá? Onde está Zeus que não doma seus filhos?
- O olhar de nossos deuses não ultrapassa corpos leves.
- Corpos sem alma?
- Corpos de baile. Dança, deus da morte, dança que a leveza se encarrega do voar. Bailarino do Nilo, baila! O rio corrente em suas veias muito em breve secará.
- O que dizes é loucura.
- Digo o necessário, o que diz o breviário do meu deus ausente.
- Poetisa...
- Chame-me dançarina.
- Bela dançarina dos bons ventos. Como poderia eu me libertar do fardo divino, o ofício de guia dos mortos?
- Salte da morte para vida. Estenda os braços e enlace o que puder, no tempo que lhe sobrevier...
Enquanto fala, os braços de Safo se alongam e sua boca alarga até se abrir como portal frente a Anúbis. A divindade egípcia enxerga uma alma simplesmente livre: morte e vida não lhe acometem. Ele quer da mesma água. Seus olhos agora são brilho. Cajado lançado no chão, com um passo adentra a bocarra... que num átimo o devora – beiços lambidos, os braços se entrelaçam e o que se forma é casulo – ou sarcófago. Sem betume, sem bálsamo, mas selado. A viagem será longa.
E. N.
3 comentários:
Elias!
Sou seguidor seu agora,
e eis que sou recepcionado por este belíssimo texto!
Muito bom esse texto!
Prometo dar uma bela fuçada em seus arquivos para ver outras belezas
Abraço,
Matias
Então você deu um jeito nessa espelunca... hahaha Cara, mto bom o texto! Adorei a cena da "rangada"... E vê se para de assaltar refeitórios na calada da noite... Abração, fica cm DEUS
Matias, muito grato por suas palavras!
e Gabu, que saudades! haha, pode deixar, vou largar essa vida de invasor. e obrigado pelo comentário! fico feliz que tenha gostado.
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