tu não merece

tu não merece
as flores,
os bomboms
e tampouco as serenatas.
as poesias?
rasgue-as em mil
- mais que mil -
milhões de pedaços
e jogue-os ao ar,
pra que o vento os carregue
pra lugar algum.
tu não merece
as noites maldormidas,
as olheiras,
os calos que criei
- ah, os calos que criei!
não merece nem
o do dedinho mínimo
do meu pé esquerdo,
ora se não!
tu não merece
o suor,
o sangue que verti
(cabernet sauvignon,
malbec, do porto
e todos os brancos suaves)
- sangue caro,
mesmo os de safra recente.
ah, se merecesse
um só tostão
torrado nas noite e dias
em que parecia merecer,
mas como?
como veio
a não merecer
sequer um tostão furado?
esse merece até
o já tendido ao
não-merecimento
que estende a mão,
em ato transgressor
do não-mérito,
esperando que algum
desavisado da vida,
sem saber o desmérito
em que incorre
ao fazê-lo,
ofereça-lhe o tal tostão.
mas, esse,
tu não merece.
o cinema,
os parques,
os meus não-atrasos
(poucos e tão valiosos),
os meus perdões
e desculpas.
tu não merece
a carta que mandei
o desenho que fiz
o verso que rimei
o beijo que quis
o beijo que dei
"our last kiss
in that day"
as lágrimas...
que lagrimei
(que homem não chora).
tu não merece,
enfim,
este poeta estronchado
entregue ao vício
da escrita
e à sarjeta poética
mas
com uma centelha rara
de morte-e-vida
em cada gesto.
merece-o o mundo,
vasto mundo,
que é bem maior
que tu
e teu mundo
de desonra ao mérito.

E. N.

3 comentários:

Catt disse...

Uau!!!!
Sem mais...

Elias disse...

hey Catt, obrigado!

Pamella Soares disse...

Eliii!

Nossa! esse texto está perfeito!
Me identifiquei bastante.

Parabéns pelas palavras sábias!!! =)